Carta à vida

Oi vida, tudo bem?

Não se chateie comigo se por vezes desfaço de ti. Sabe, é que nasci há alguns anos e, embora tenha aprendido muitas coisas, não me conhecia. Sim, já havia sido lagarta e saído do casulo, alçado alguns vôos. Admiráveis até. Porém somente as pessoas ao redor enxergavam aquilo que para mim era comum, quase sem valor. Vitórias eram minimizadas como obras do acaso, da sorte, da predestinação, menos de meus méritos. Daí nos primeiros grandes tropeços só me faltava dizer: – Ah, eu já sabia! Mesmo depois de voltar a ter grandes vitórias, via-me pequena. Sabia-me apenas inteligente. E nem a conquista da vida que escolhi foi suficiente. Sabe aquela história da casa do ferreiro e da grama do vizinho? Pois é, achava que os elogios provinham dos olhos bondosos, castanhos, que me viam assim, por amor.

Até que vida, você não teve pena. Disse que eu não era digna disso. E eu, que assumira responsabilidades novas, e ainda me via na condição de filha, fui guiada por ti a me ver adulta, assumir meus atos. E fui percebendo que, por nunca ter visto as cores de minhas asas, havia me encolhido novamente ao casulo do qual deveria estar há muito liberta. Daí abri-me, quase como um pavão. As cores estavam lá, as vitórias passadas e presentes rodavam como num filme e os erros eram apenas fatores, os quais poderia enfrentar e corrigir. Quis então borboletear, ganhar o mundo. Tive de conhecer limites, mesmo diante da beleza azul dos novos dias. Como suportar, após anos de subexistência, ter de me controlar? Então tu me pediste calma, paciência, gratidão e amor pela vida que já tinha até então. Sim, já amava minha vida e agradecia a Deus por ela. Porém, além de tudo, disses que precisaria escolher alguns caminhos e que as limitações eram para me fortalecer. Oras, minha vida mimava-me antes e assim, vida, fiquei com muita raiva de você. É como se tivesses mentido. Mal descubro que posso muito, muito mais e já devo aprender que nem tudo? Recorri ao recurso infantil de lhe desdenhar. De vez em quando, ainda recorrerei, ninguém é perfeito. No entanto, tudo tem um motivo maior, e vida, agora entendo que não renasci a toa. Borboletas me esperam. Não para que eu as ajude a sair,  enfraquecendo-as, mas sim que eu as estimule a usar seus talentos para conseguir. E preciso fazer com que saibam que cada uma delas tem um tempo para crescer. Não importa quando, nem como. Dores são inevitáveis, nos fazem dar valor ao que, na maioria das vezes, já eramos ou já tínhamos. Ninguém disse que será fácil. Mas vida, estou contigo para fazermos juntas a pequena grande contribuição que nos cabe. Ter sido escolhida por ti, para contribuir nessa missão, já me faz feliz.

Obrigada.

Da sua fã,

Aprendiz.

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